Uma pesquisa publicada na revista científica PLOS One por cientistas da Russian Academy of Sciences e do Institute of Archaeology and Ethnography documenta uma possível intervenção invasiva em uma lesão de cárie na história evolutiva humana, realizada por neandertais há aproximadamente 59 mil anos. O artigo, intitulado “As evidências mais antigas de mitigação invasiva da cárie dentária por neandertais”, apresenta análises de um achado arqueológico que sugere a manipulação intencional de um dente afetado por cárie.
O presidente da Comissão Temática Odontologia Baseada em Evidências do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dr. Carlos Alberto Monson, analisa o estudo:
“As análises macroscópicas, microscópicas e microtomográficas do segundo molar inferior esquerdo do espécime Chagyrskaya 64, complementadas por verificações experimentais, confirmam que a origem de uma grande depressão na superfície do dente foi causada intencionalmente antes da morte. As características observadas indicam que o dente foi perfurado ou submetido a movimentos rotatórios com uma ferramenta de pedra, provavelmente para remover a parte danificada pela cárie e alcançar a câmara pulpar.”
Em resumo, o molar de Chagyrskaya 64 revela informações inéditas sobre a saúde durante o Paleolítico Médio. O estudo sugere que os neandertais realizavam práticas odontológicas invasivas e planejadas muito antes das primeiras evidências semelhantes encontradas em Homo sapiens.
A descoberta amplia a compreensão sobre a complexidade comportamental dos neandertais e indica que formas de intervenção consciente em problemas de saúde podem ter existido há dezenas de milhares de anos, demonstrando que eles compartilhavam com os humanos modernos capacidades avançadas de adaptação e cuidado.
Dr. Monson esclarece que o artigo se baseia em um relato de caso observado a partir do encontro de um fragmento de mandíbula de um neandertal durante uma exploração arqueológica realizada, em 2007, em uma caverna na Rússia anteriormente habitada por essa população. Trata-se de um achado relevante, considerado o caso mais antigo já documentado de possível intervenção invasiva em uma lesão de cárie na história evolutiva humana. No espécime analisado, observou-se que um molar inferior apresentava sinais compatíveis com uma tentativa de mitigação de dano dental, aparentemente realizada de forma planejada.
Entretanto, embora as evidências indiquem que houve manipulação intencional do dente, inferir que essa ação teve finalidade eminentemente terapêutica ainda deve ser tratado como hipótese. Segundo o especialista, é necessário considerar as condições ambientais da época, a realidade daquela população e a ausência de recursos técnicos hoje considerados essenciais, como anestesia, instrumentos apropriados e condições favoráveis para a realização de procedimentos odontológicos.
Sob a perspectiva da Odontologia Baseada em Evidências, a riqueza de detalhes apresentada na seção de Materiais e Métodos do artigo permite outras interpretações plausíveis. As marcas observadas podem indicar ações relacionadas à curiosidade, investigação, aprendizado ou treinamento de habilidades manuais, inclusive em um indivíduo já falecido.
Para o presidente da Comissão Temática Odontologia Baseada em Evidências do CROSP, é possível que a manipulação dos dentes estivesse associada à tentativa de compreender ou aliviar desconfortos provocados por processos inflamatórios avançados, mas não há elementos suficientes para afirmar categoricamente que se tratava de um tratamento odontológico nos moldes atualmente compreendidos.
O profissional finaliza destacando que, no contexto do artigo, o termo “evidência” é empregado em um sentido mais amplo, próximo ao senso comum. Do ponto de vista da Odontologia Baseada em Evidências, os dados apresentados não permitem concluir, de forma definitiva, que tenha ocorrido um tratamento de cárie em neandertais.
Fonte: https://crosp.org.br/noticia/comissao-tematica-de-odontologia-baseada-em-evidencias-do-crosp/

