A fissura labiopalatina atinge 1 a cada 650 nascidos no Brasil, segundo informações do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da Universidade de São Paulo (USP). Caracterizada pela não fusão adequada dos lábios e/ou do osso maxilar, a condição exige um acompanhamento de longo prazo. O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) ressalta a atuação de três especialidades essenciais nesse processo de reabilitação: Odontopediatria, Ortodontia e Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial.
Acolhimento e primeira infância
Muitas vezes, o diagnóstico ocorre ainda na gestação ou logo no nascimento. A Dra. Karla Mayra Pinto e Carvalho Rezende, membro da Câmara Técnica de Odontopediatria do CROSP, enfatiza que o papel inicial do profissional é acolher a família fragilizada e fornecer orientações práticas de cuidado.
“A primeira mensagem deve ser de segurança: a criança pode se alimentar, crescer, sorrir, falar e se desenvolver, desde que acompanhada por uma equipe multiprofissional”, destaca a doutora.
A alimentação é o primeiro grande desafio. Nas fissuras palatinas, a comunicação buconasal dificulta a sucção. A especialista explica que, além das orientações posturais, o cirurgião-dentista pode indicar placas palatinas (obturadoras), que atuam como barreira e facilitam o ganho de peso.
A higiene bucal também exige atenção precoce. Devido à anatomia da fenda e frequentes alterações no esmalte, essas crianças têm maior risco de cárie. Manter os dentes de leite saudáveis é vital, pois eles preservam o espaço para os dentes permanentes e favorecem o sucesso das futuras intervenções cirúrgicas.
A Ortodontia no preparo cirúrgico
A atuação ortodôntica começa muito antes da adolescência. O Dr. Ronaldo Tuma, membro da Câmara Técnica de Ortodontia do CROSP, destaca que o especialista pode orientar a família logo após o diagnóstico inicial. “O tratamento das fendas labiais e ou palatina é um processo extremamente complexo que demandará um longo tempo”, exigindo forte comprometimento e atuação conjunta de uma equipe multidisciplinar, afirma Tuma.
O ortodontista prepara a estrutura óssea para as cirurgias. Antes do enxerto ósseo, por exemplo, realiza-se a expansão transversal da maxila com aparelhos específicos. “A expansão dos arcos dentários possibilita uma melhor relação entre a maxila e a mandíbula, situação que melhora a função, traz conforto e garante espaço para a erupção correta dos dentes”, detalha o doutor.
É após esse preparo que a cirurgia atua de forma decisiva. O Dr. José Roberto Barone, membro da Câmara Técnica de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do CROSP, explica que a fenda interrompe o arco do rebordo ósseo da maxila, exigindo um enxerto para unir os segmentos. “O padrão correto são os enxertos autógenos, isto é, do próprio paciente, removendo de uma área doadora”. Realizado idealmente entre os 8 e 12 anos de idade, o procedimento devolve a estabilidade da maxila e viabiliza as movimentações ortodônticas. “Por este motivo é considerado o ‘ponto de virada’ para o sucesso no nascimento dos dentes”, pontua Barone.
Tecnologia e reabilitação integral
A tecnologia digital hoje permite criar aparelhos individualizados e, além de reposicionar as estruturas, cobrem a fenda e auxiliam na fonação e deglutição. Todo esse trabalho atua em sinergia com a equipe multidisciplinar que atua no tratamento.
O Dr. Ronaldo lembra ainda que a recém-sancionada Lei 15.133, de 6 de maio de 2025 prevê a obrigatoriedade da oferta de cirurgia reconstrutiva de fissura labiopalatina, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), reforçando o direito à recuperação completa do paciente e o papel indispensável da Odontologia na devolução da qualidade de vida e da autoestima.
Fonte: https://crosp.org.br/noticia/dia-nacional-de-conscientizacao-sobre-a-fissura-labiopalatina/

